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Sobre quem pinta e (trans)borda

Não dá certo. Não dá certo esta história de gente que transborda e resolve segurar. Gente que já sabe que não há o que fazer, vai sempre faltar lugar para esvaziar. Mas mesmo assim acha que consegue sozinho cuidar do próprio excesso de sentimento sem derramar em ninguém. Segura até ficar roxo. Segura até se afogar. 

E depois solta tudo, sem nem perceber onde está. E quando tentam perguntar... É uma senhora aula de excessos para alunos que para falar bem a verdade nem estavam tão interessados. Só queriam saber, por que no meio daquela gente que parecia feliz, tinha um pedaço de gente que hora ou outra fungava o nariz e fechava bem os olhos pedindo com fé para a emoção não sair. Mas ela saía, não tinha o que fazer. Saía bem ali, pra todo mundo ver.

Se é problema da gente que tem demais para dar ou da que não quer receber, eu realmente não sei. Sei só que vira e mexe (se você prestar bem atenção) dá pra ver um monte de gente transbordando por aí. Não adianta ficar curioso pra saber o que aconteceu. Porque nessa história de transbordar nada é no passado. É um eterno gerúndio que vai acontecendo, doendo, transbordando e saindo até quase esvaziar. E o problema é o quase. Quem fica quase vazio ainda é quase cheio de alguma coisa. E se essa coisa for amor, eu sinto muito porque não dá pra sentir pouco. Hora ou outra ele vai sair e se não quiser explodir é melhor soltar.

Tem gente que gosta de viver perto de quem enche a gente de sentimento bom. Mas não adianta encher se não quiser compartilhar. Esvaziar sozinho sufoca e cultivar emoção que não vai colher é deixar uma bomba prestes a explodir. E o pior, vai explodir sozinha.

É por isso que também tem gente que hora ou outra resolve viver longe do que enche. Foge do amor igual o diabo da cruz. Acha que assim dá pra encher aos poucos, sem exagero, sem dramas, sem sofrimento. Mas é aí que mora o problema: não dói encher, o que dói é esvaziar.

Não adianta ficar longe, adotar o desapego, ensaiar longas gargalhadas para ver se cabe mais alguma coisa. Pra desinchar do jeito que faz bem, só achando alguém meio vazio que aceite dividir o que você quer tanto oferecer. Ou o rio de sentimentos sai no abraço recíproco, ou (como costuma acontecer comigo) escorre pelos olhos em qualquer lugar.



SOBRE A AUTORA: CAROLINA RUEDAS tem 21 anos e é autora do livro O Mundo Imutável de Melina. É estudante de letras da Unicamp, mora no interior de São Paulo e é (não estranhe!) apaixonada por elefantes. Ela desativou o blog por um tempo, mas vai aparecer por aqui algumas vezes e pode ser encontrada também no twitter, no @caruedas.

Comentários

  1. Quem nunca explodiu em publico por estar totalmente cheio de um sentimento? Belo texto!

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  2. Anônimo27/4/14

    Belo texto, Ruedas! Belo texto!

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  3. Eu nem preciso dizer que sou apaixonado por todos os textos que você publica aqui né? Sempre tem alguma parte que me descreve e eu tô morrendo de amor por esse <3

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  4. Anônimo8/5/14

    Aiiii, como estava com saudade de ler um texto da Carolina

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  5. Lindo texto! "E se essa coisa for amor, eu sinto muito porque não dá pra sentir pouco. Hora ou outra ele vai sair e se não quiser explodir é melhor soltar" quando é amor é melhor deixar transbordar... venha conhecer meu blog http://paulettilidia.blogspot.com.br/ beijinhos

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  6. Anônimo28/5/14

    RUEDINHAS!
    Estava lendo aleatoriamente e encontrei mais um texto seu lindoooooo, como todos os outros.

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  7. Amei o texto, adorei essa parte "não dói encher, o que dói é esvaziar." E confesso que muitas vezes eu já quis esvaziar, porque cansa tentar encher. E a propósito amei sua biografia! e também sou louca apaixonada por elefantes o/

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