Pular para o conteúdo principal

Nem Lésbica Nem Puta: Apaixonada Por Futebol

Ser mulher e gostar de futebol é estranho, mas é engraçado. É aprender a lidar com olhares meio torto de marmanjo sem noção que acha que a gente tá tentando conquistar ao falar que, sim, a gente não só acha graça em 22 homens correndo pelo campo, como não perde um joguinho que se preze no domingo à tarde. Ser mulher e gostar de futebol é aguentar as perguntas imbecis: ah, você gosta mesmo de futebol? Então me explica o que é impedimento. Como se impedimento fosse algo muito difícil de se entender. E responder, com a maior paciência, dando vários exemplos, sendo irônica, com sorrisinho de canto ao ver o sorrisinho de canto do sacana diminuir a cada resposta correta. É saber que você tem que entender muito mais do que o rapaz que discute com você se quiser ter alguma moral com ele ao abrir a boca e falar que o time dele é, ó, uma merda e não tem nada a ver com o fato do time dele ser, ó, coincidentemente, rival do seu e sim com o fato do time dele ter uma zaga ridícula e um ataque pior ainda; que o técnico só faz substituição mal feita e que por isso ele tá no meio da tabela e não no topo –mesmo quando seu próprio time não está liderando aquela merda de campeonato –Inclusive, ser mulher e gostar de futebol é entender todas as limitações do seu time de coração, os pontos fortes, fracos, e mesmo assim, na pior da situação, tipo o São Paulo no ano passado no Brasileirão, fazer como eu e colocar um avatar no twitter com a blusa do time pra dizer que: pois é, amor é assim mesmo, meio maluco né?

Ser mulher e gostar de futebol é ser apresentada para os amigos do seu pai e ouvir dele um “mas se for discutir futebol com ela, toma cuidado, que ela sabe tudo”; é ter que entender de técnica, tática, história e por que raios tem três estrelas na blusa pra provar pro carinha que você sabe mesmo da coisa. É ser chamada de mulher perfeita pelo carinha que gosta de você porque além de bonita, ainda entende do esporte. Mas também é aguentar cantada chata quando você resolve assistir o jogo num bar cheio de marmanjo e eles acharem que você está lá só para ver coxas e braços e peitos e barriga. Aliás, ser mulher e gostar de futebol é entender sim de coxas, braços, peitos e barriga bonita, mas também acompanhar a bola dentro de campo, porque mulher, você sabe, mulher sempre conseguiu se focar em mais de uma coisa ao mesmo tempo.

É pular sem medo de se despentear, mesmo que você ande sempre arrumadinha, quando o adversário quase faz gol no seu time; é mandar o juiz tomar no cu, quando você é a bonequinha da família; é abrir mão da roupa da moda pra colocar a blusa do seu time; e é gritar É GOL CARALHO mesmo quando você nem fala tanto palavrão assim, no dia-a-dia. Porque nada bate falar um caralho, depois de um gol do seu time em cima do grande rival numa final de campeonato; é não impedir o namorado de ir jogar uma pelada, mas pedir pra ele fazer um gol só pra você na partida com os amigos (e se puder me levar, cara, me leva que eu juro que não reclamo não!).

É assustar os homens porque você entende mesmo da coisa ao mesmo tempo em que consegue a admiração deles por isso; é deixar o namorado morrendo de ciúme porque você ás vezes fala demais do jogador tal, porque você sabe que o Cristiano Ronaldo não é apenas um rosto bonito e que, por Deus, a seleção da Itália vai ser gata assim na minha casa, por favor! É ficar louca quando um jogador desmaia em campo porque, diferente dos homens, somos passionais e não conseguimos disfarçar isso mesmo quando o jogador é do time rival. Ser mulher e gostar de futebol é não conseguir ver uma bola e não tentar ir lá dar uma embaixadinha mesmo que a gente não saia da primeira; é ouvir da mãe um berro de “por que é que você não vê futebol que nem mulher?” e não entender o que ela quer dizer com isso ou ouvir da sua avó que ela desconfia que você é lésbica, porque você tá sempre no meio de muito homem assistindo jogo. Ou é lésbica, ou é puta. Que no meu tempo quem gostava de futebol era homem.

No seu tempo, vó, podia até ser. Mas hoje a mulher foi pra rua, conquistou emprego, independência, voto nas eleições e o poder de decidir do que gostar ou não gostar sem ser censurada por isso. Hoje, a invasão feminina no futebol é incontestável. E a paixão mais ainda. E não somos nem lésbicas nem putas (ou podemos até ser, mas não por ser apaixonada pelo esporte), mulher que gosta de futebol é mais feliz – porque, sinceramente, não tem como não ser feliz com uma seleção como a da Itália na Copa do Mundo com um uniforme colado no corpo, né?

BLOGAGEM COLETIVA: O tema dessa blogagem foi futebol. E assumo que foi bem difícil escolher um texto para postar, a concorrência foi bem acirrada. Por isso, apesar de ter escolhido o texto da Fernanda Campos, lá do UDC, como o vencedor desta vez, vou convidar mais duas leitoras para escrever um texto pro blog (entro em contato em breve com as meninas escolhidas). Enquanto isso, apreciem os textos da galera que participou:

Ah, o futebol..., da Érica Larissa
Apito final, da Daniela Martins 
Dentro das Quatro Linhas, da Débora Svaiger
Fim de jogo, da Carol Ruedas
Retranca, do blog Serenata a Capella




Comentários

  1. Apenas chocada que você escolheu o meu hahahahahahahahahaha

    ResponderExcluir
  2. Confesso que não sou uma viciada em (assistir) futebol não... Mas adorei ter identificado várias colegas nesse texto!! Adoro a maneira como você escreve, Karine, é leve, é divertida... assim como o futebol deveria ser. Parabéns!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Gostou do post? Deixa sua opinião ou sugestão de post aqui que a gente vai adorar ler! ;)

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Querido namorado da minha ex-melhor amiga,

Ela chorou durante uma semana quando o primeiro cara quebrou o coração dela. E a gente passou o fim de semana vendo Diário de Uma Paixão e Um Amor Pra Recordar por vezes seguidas. A gente comeu brigadeiro, e tomou sorvete, e eu dei colo, e eu ouvi e limpei as lágrimas. Você não viu, porque você não tava lá, mas eu tava. 
Ela sofreu para escolher que faculdade iria fazer. E me fez ir a palestras e cursos com ela, mesmo que eu não estivesse interessada em nada daquilo. E me fez saber um pouco mais sobre as profissões que tava considerando. E pediu minha opinião milhões de vezes. E só decidiu o que iria prestar no vestibular aos quarenta e cinco do segundo tempo. Você não ficou nervoso com a ansiedade de ver se ela tinha passado na faculdade pública, mas eu fiquei. Porque você não tava lá, e eu tava. 
Ela conheceu um monte de babacas nos anos seguintes. E algumas vezes chorou, algumas vezes bebeu, algumas vezes disse que nunca mais ia ficar com cara nenhum. Algumas vezes ela só dormiu com …