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Perdoa, moço

Era início de inverno quando ela decidiu ir embora. Nem pensou na cama fria que deixava (que espécie de pessoa vai embora quando a gente mais precisa de alguém pra nos aquecer?). Tinha silêncio, que foi o que mais ela deixou. E tinha ainda um milhão de coisas pra falar, mas que cê nem falou. Quem é que fala com um nó na garganta? Quem é que pede pra ficar quando já sabe que não fica? Ela foi embora e você pensou: que vá pro inferno!

Você ficou com a dor, o desamor, a tristeza, a desilusão. Cê ficou com a raiva, embrulhada pra presente, esquecida debaixo da cama, fazendo um barulho que só por Deus. Eu vou odiá-la pro resto da minha vida, cê pensou. E eu só peço: ainda que seja difícil, moço, perdoa.

Perdoa se ela não teve tato pra te dizer, assim, que o amor não é incondicional como a gente pensa. Talvez ela não tenha conseguido ser a mulher que você queria que fosse – e, pior, talvez isso doa mais nela do que em você. Ou talvez, na verdade, ela só não tenha passado ainda pela dor de um coração partido desses que ela deixou no seu peito. E aí é irresponsável com os sentimentos dos outros como se quebrar o coração fosse que nem bater o dedinho do pé na quina da cama (ela só não sabe que, apesar de passar, dói como se fosse o fim do mundo – nas duas situações).

Mas perdoa.

Perdoa se, mesmo com o início repleto de lembranças lindas, tenha acabado com o mesmo fim triste e patético de suas outras relações. Perdoa os gritos, as lágrimas, os silêncios, o ciúme, as portas batidas, a indiferença, as vezes que ela não ligou, as vezes que ela voltou quando devia ter parado de tentar te machucar e, principalmente, perdoa por ela não ter mais voltado.

Perdoa o que teve de menos e por tudo o que houve demais. Perdoa se o anúncio oferecia tudo bem diferente. Perdoa por você ter limpado tudo, trocado os lençóis, ajeitado a vida, preparado comida e arrumado imperfeições, tudo pra ela se sentir em casa, se sentir bem e vir pra ficar – pra sempre.

Perdoa se não teve amor, se não teve nada. E lembra que, apesar de tudo, teve carinho. Bem pouco, talvez quase nada, ou talvez um montão. E guarda na lembrança o tudo que ela te deu antes de te deixar com o quase-nada – a não ser com as lembranças ingratas de um amor que quase foi. E, quando lembrar do último sorriso que cê deu antes de tudo, perdoa. Que, na verdade, quando a gente perdoa o outro, tá mais é se perdoando e aceitando: nem sempre dá pra controlar os nossos finais.

Comentários

  1. "Nem sempre dá pra controlar os nossos finais." - essa é bem a verdade né? Lindo texto.
    Blog Dezesseis de Volta

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  2. Puts'
    Kah, que textoo!
    Sabe aquela sensação de procurar palavras que descrevam sua opinião, e simplesmente não encontrá-las? Pois é.
    Pelo simples fato de que nenhuma palavra descreve todo o sentimento que surgiu ao ler esse texto. Tá lindo! Arrasando, como sempre faz. :*

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    Respostas
    1. E vc sempre fofa, Kah <3
      Mto obrigada!

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  3. Muito bom! Parabéns. Você escreve muito bem! =)
    Beijos

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  4. "Que, na verdade, quando a gente perdoa o outro, tá mais é se perdoando e aceitando: nem sempre dá pra controlar os nossos finais." Pura realidade!!
    Perfeito o texto, como todos os outros Karine!
    http://escrituras-da-alma.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Sâmela!

      Beijão

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  5. Queria poder ler um texto seu todo o dia! Sentir esse turbilhão de emoções toda vez que leio cada frase, me identificar em algumas partes e tirar um trecho bonito pra escrever em algum lugar por aí. Pra poder aconselhar os amigos, e com apenas uma frase sua, confortar e ajudar tanto. Você tem um dom: de tocar as pessoas com seus textos, de transformar sentimentos em palavras. Não para com isso não.

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    Respostas
    1. Awn, muito obrigada mesmo, Lizandra <3

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  6. Textos incríveis aqui.. adorando..
    É sempre melhor perdoar mesmo que isso nos tenho machucado tanto..

    Beijos querida.

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  7. para com essa mania de escrever coisa boa que consome os outros menina! hahahahahha mentira, não para não!
    mandou muito bem como sempre, sou fã!

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  8. Nossa, bateu uma vontade enorme de ler um texto seu. Digitei o endereço na barra de pesquisa e encontrei o espaço com uma cara diferente, mas seus textos continuam lindos e você continua escrevendo muito bem, igualzinho como eu lembrava hahaha

    Vou tratar de voltar mais vezes e aproveitar para participar da próxima Blogagem Coletiva.

    Psyme

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  9. Karine, tudo bem?
    Enfim, decidi comentar. Não fica chateada se eu falar que leio aqui há tanto tempo e nunca comentei?
    Eu que tenho um blog também, sei o quanto é importante receber um comentário sincero, por isso, decidi que você precisava saber da minha existência! rs
    Te conheci pelo Depois dos Quinze e o que eu posso dizer? Você é mesmo sensacional. Amo de verdade a sua escrita!
    Não são todos os textos que a gente se identifica né? Mas é incrível o quanto todos me tocam de uma forma, porque você simplesmente consegue passar muita realidade neles.
    Parabéns, viu? Te desejo muito, mas muito sucesso mesmo!

    Beijos!
    www.miragemreal.com

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  10. Ahh seus textos... <3
    Apaixonei nesse e tive que postar no meu blog (com os devidos créditos, claro).
    Parabéns Kah! Arrasou.

    http://deixadedrama.blogspot.com.br/

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  11. "Ou talvez, na verdade, ela só não tenha passado ainda pela dor de um coração partido desses que ela deixou no seu peito. E aí é irresponsável com os sentimentos dos outros como se quebrar o coração fosse que nem bater o dedinho do pé na quina da cama (ela só não sabe que, apesar de passar, dói como se fosse o fim do mundo – nas duas situações)." - Mas querido, aqui se faz aqui se paga, é o ciclo da vida don't worry hahaha

    KARINE DO CÉU, só digo uma coisa, você tem o dom da palavra!

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  12. ...Que, na verdade, quando a gente perdoa o outro, tá mais é se perdoando e aceitando: nem sempre dá pra controlar os nossos finais.

    Trabalho perfeito o seu Karine 😘

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  13. Este comentário foi removido pelo autor.

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