28 de julho de 2014

Where were you

Cheguei em casa. Puta que pariu, vou ser bem sincera, essa é a pior parte. No trabalho, tem as metas que me distraem. Tem o chefe, tem aquela amiga que quer me contar do final de semana, tem a galerinha da copa, tem o café, tem a lanchonete no térreo que tem um pão de queijo sensacional, tem meia dúzia de problemas que, caceta, tenho que resolver ou já posso começar a descolar os adesivos que grudei no computador.  Em casa não tem nada disso. Só tem você.

Tem você na minha cama porque foi você quem saiu pelas lojas daquele shopping de móveis lá da zona norte pra achar um colchão que não fosse ferrar com a minha coluna. Tem você na coleção de discos que cê resolveu me dar junto com a vitrola marrom que conquista todo mundo que visita minha (puta que la mierda, isso soa horrível) casa. Tem você nos cantos rachados dos pratos que minha mãe me deu quando resolvi morar sozinha e ainda não tive dinheiro pra substituir por outros. Tem você nas correspondências porque ainda tem os boletos da nossa viagem pra Buenos Aires – a última vez em que a gente foi feliz. Ou, sei lá, a última vez em que eu achei que a gente era.

Dica para o resto da vida: nunca dividir uma viagem em vezes o suficiente pra dar tempo do cara ir embora. Que daí cê só fica com a parte ruim da viagem. Que nem eu fiquei com a parte ruim de você.

É uma verdadeira bosta ainda ouvir falar de você. Mas vocês se amavam tanto. Mas ele parecia louco por você. Mas eu achei que vocês fossem casar. Mas vocês faziam um casal tão bonito. Que porra, né? Eu também achei tudo isso, só que ele não. Eu também sonhei com o conto de fadas. Eu também achei que, sei lá, eu fiquei aqui, na doença, na pobreza, nas ligações de cobrança, no dia do desemprego, no dia que o seguro-desemprego acabou, nas bebedeiras em que ele quebrava a casa inteira, nas ressacas em que ele pedia desculpas, então, não sei, achei que ele ficaria também.

E ele não ficou.
E cê arrumou as coisas, cansou e foi procurar outra novinha pra te dar tudo, pra sugar tudo, pra chupar até a última gota de sangue antes de sair pela porta e dizer: eu não tô a fim de lidar com os seus problemas. 

Mas ah, eu cheguei em casa. E tem uma faxina enorme que preciso fazer até te arrancar inteiro das paredes. Porque, porra, cê não tem ideia do mal que cê me fez. Mas espero, de verdade, que eu consiga ver, qualquer hora, algum bem nessa merda toda também.



Oh baby why did you run away?

I was there for you
In your darkest times
I was there for you
In your darkest nights

But I wonder where were you
When I was at my worst
(Maps - Maroon 5)


Comentários
8 Comentários

8 comentários:

  1. Parece até que você está conversando com o leitor, de tão direito que ficou. Lindo!

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  2. Como é que faz pra tirar ele das paredes, do quarto, da casa inteirinha, quando ele já se foi? Amo teus textos Kah ;3

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  3. Caraca, que real. Quase me ofereci para ajudar na faxina, sabe? Tão real, tão intenso. Parabéns, como sempre.

    Beijo, Érica

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    1. ahahahahahhaha Ajuda é sempre aceita hahahahahaha
      Obrigada, Érica <3

      Beijos

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  4. Lindo texto. Parece ser tão real, tão verdadeiro. As vezes eu fico pensando se realmente o que você escreve é de fato verídico, ou são só histórias, ahh.. as estórias que todo jornalista ama contar. Tenho que confessar que tenho essa pulga atrás da orelha ao ler seus textos. Sou leitora do seu blog já faz um tempinho, desde que eu criei o meu, sempre olho suas postagens, já até ''rebloguei'' algumas suas e do Uma Dose de Café, pois são os meus preferidos. Continue assim, Kah! Amo o seu ''trabalho''! beijão. E se qualquer coisa, quiser ver o meu blog, aqui segue o link. http://quase24horas.blogspot.com.br/ Abraço linda!

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  5. Que texto lindo! Visito o blog Depois dos Quinze há alguns meses, e o que mais gosto são os seus textos, sempre tão profundos! Eu me identifico facilmente com as suas palavras!
    Estou te seguindo, tá? Beijão :*

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