8 de setembro de 2014

Continua Girando

Olha, eu não queria falar nada, mas ainda há vida lá fora. E ainda que também haja colo, sempre que precisar, é preciso de si próprio para sacudir a poeira de vez em quando. Ferida de amor dói, ô se dói, algumas marcam pra sempre, algumas nunca passam, algumas doem mais que qualquer outra dor, mas ó: ó a vida passando, entre uma lágrima e outra, entre a indecisão de ficar aqui, seguro, ao lado dos próprios cacos, e ir. Sabe? Ir. Sabe-se lá Deus para aonde.

Superar amor envelhecido, remoído e maltratado é sempre uma tarefa mais nossa do que do mundo. Porque as horas ainda passam, ainda há dias de sol e de chuva (talvez nem tanto em São Paulo, mas há), ainda há nuvens pretas, e frio, e calor, e a primavera chegando. O mundo tá ali, fazendo a parte dele, cumprindo a tabela, esperando só a hora de você levantar e decidir fazer alguma coisa da vida. O despertador toca toda manhã numa pergunta sem fim: e aí, é agora que você vai cansar de ser infeliz?

Na teoria, sempre fácil. Mas é que dor emocional é coisa só nossa. Não tem merthiolate que dê jeito. No máximo, a gente arranja essas pessoas-curativo, que sempre parecem ser a solução de todos os problemas. Nada-como-um-amor-novo-para-superar-o-antigo, costumam dizer. E a gente esquece que band-aid arrancado da pele na pressa faz lembrar a dor do corte. Atrasa o processo de cicatrização. E não sara. Não passa. Cadê a cura?

Se a gente soubesse a fórmula de não se magoar por amor, talvez a gente também já tivesse inventado a vacina. E viveríamos assim: sem caras quebradas, mas também sem grandes paixões. Porque amor, no fim das contas, é processo de entrega. E se entregar é correr sempre o risco de cair no caminho. Quebrar. Chegar atrasado ao destinatário. Pior: correr o risco de ser devolvido ou trocado sem nenhuma consideração. 

Ou então correr o risco de receber, também, algo de bom em troca. Talvez, sei lá, um presente como um coração - pronto pra tudo.

Tudo isso pra te falar que: a maioria de nós, mortais, passa por isso. E tem choro, e tem grito, e desespero, e vontade de nunca-nunca-nunca-nunca-mais. Mas ainda há vida lá fora. Outras histórias. Outros porres. Outros amores. E dezenas de amigos. E gente que sabe, talvez só um pouco, o quanto dói por aí. E se ainda doer também por aqui, não tem problema: a gente sofre junto. Porque, como ouvi uma vez (em um contexto completamente diferente): na desgraça, a gente se abraça. 

E o mundo continua girando. 




Obs: Ainda quero conhecer seu blog! Dê uma olhada neste post aqui e deixe seu comentário. 


Comentários
12 Comentários

12 comentários:

  1. Já disse que sou fã dos seus textos e estou sempre acompanhando...
    Texto maravilhoso!
    "E se entregar é correr sempre o risco de cair no caminho. Quebrar. Chegar atrasado ao destinatário. Pior: correr o risco de ser devolvido ou trocado sem nenhuma consideração..."
    http://sentimentalismodesmedido.blogspot.com.br/
    @amorcomverso

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    1. Que bom que cê gosta, Mart <3

      Valeu,

      Beijão

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  2. Texto escrito pra mim, amei. E em cada palavra eu li um pouco da minha tentativa frustrada de superar um amor “envelhecido, remoído e maltratado”. Ótimo texto, Parabéns!

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    1. Muito obrigada, Andrielle <3333
      Bjs

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  3. Parabéns! Muito bom o texto. :)

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    1. Obrigadaaaa, Rebeca <3
      Beijos

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  4. Que texto lindo, tocou lá no fundinho do meu coração <3

    www.girlsmachine.com

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  5. Meus sentimentos descritos em um lindo texto.

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  6. Anônimo12/9/14

    Texto maravilhoso! Escrita gostosa de ler! Todo sucesso do mundo pra você. Ah, e espero ansiosamente em um dia ter um livro seu em mãos.

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  7. Karine! Te conheci pelo Depois dos Quinze e diga-se de passagem me vi apaixonada muito mais pelos seus textos do que pelo restante das postagens do blog. Tô bem sua fã esses dias, fiquei receosa de você não ter outro lugar pra postar seus textos então fiquei bem feliz por achar seu blog. Arrisco dizer que você já se tornou uma das escritoras brasileiras que eu mais me identifico, uma das preferidas, sim <3
    Só queria te parabenizar pelo trabalho e dizer que quando você resolver publicar esses textos lindos em um livro, estarei acampando na fila do lançamento! ^~
    Beijos

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  8. Que texto lindo. Às vezes eu fico pensando se o mundo que é egoísta de não parar para se compadecer do meu sofrimento ou se eu que sou boba de ficar aqui remoendo amor antigo enquanto ele continua girando, sem nem se lembrar de mim.

    "E a gente esquece que band-aid arrancado da pele na pressa faz lembrar a dor do corte. Atrasa o processo de cicatrização. E não sara. Não passa. Cadê a cura?" Amei esse trecho <3

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