12 de janeiro de 2016

Pensei em te ligar


Pensei em te ligar cerca de quinze vezes na última semana. Ensaiei dizer pra sua mãe que você tinha esquecido uma bermuda aqui, caso ela atendesse. Diria pro seu pai que apenas queria saber se você estava bem, e ele ficaria contente com isso. Pra sua irmã, eu não precisaria falar nada – ela entenderia tudo. Ela sempre entendeu. Mas pra você...pra você eu não saberia o que falar.

Acho que não tem muito o que dizer depois que tudo já foi dito. Você também não é alguém que queira ouvir. Achei que fosse, lá atrás, mas também achei tanta coisa. Achei que você respeitava meus traumas e não colocaria os dedos nas minhas feridas apenas pra me magoar quando o fim chegasse. Achei que eu podia contar com você quando doesse, sem me dar conta que você podia se tornar quem mais faria doer. Achei que encostar a cabeça no seu peito num fim de tarde qualquer me faria ter pra sempre a sensação de que eu teria um lugar pra voltar. Achei que você ia ficar.

E, entre todas as coisas que achei, a que mais doeu foi achar que você era alguém que me amava.

Devia dizer isso, então, caso você atendesse ao telefone? Que minha maior decepção era ter achado que você sabia amar? Ou que é arrasador entregar o coração pra alguém que a gente mal conhece? Porque eu não te conhecia, não é? Depois de todo o tempo que a gente ficou junto, depois de tudo o que dividiu, depois de todos os planos, eu olho pra você e não vejo nada. Não tem mais nada de tudo aquilo que eu amava aí. Que eu amava em ti.

O que você iria responder se eu ligasse e gritasse que devia ter sido você? Que eu planejei que fosse, que eu esperei que fosse, que eu acreditei, do fundo do meu peito, que fosse e que ia ser até a gente ficar bem velho? Acho que você não ia responder nada. Você deixou bem claro que não tem mais nada a falar.

Pensei em te ligar uma vez hoje pela manhã. Com um discurso feito, pela primeira vez em todo esse tempo. Queria dizer que tudo bem. Que você me ensinou alguma coisa, mesmo com todas as feridas. Que você me fez feliz, meu Deus, você fez, mesmo que depois tenha me deixado tão acabada, mais acabada do que eu achei que pudesse ficar por alguém. E que obrigada. Obrigada por ter me mostrado quem era a tempo de eu poder pular fora, de eu poder procurar outra pessoa pra amar, de eu poder juntar meus cacos e seguir em frente.

Pensei em te ligar pra falar que eu te superei.
Eu não te liguei, mas se um dia você ler isso, espero que você saiba.
Eu te amei.

E, apesar de tudo, eu não vou odiar você. 


Comentários
5 Comentários

5 comentários:

  1. Me vi nesse texto! Principalmente na última frase, que apesar de tudo a gente nunca odeia. A justificativa pra isso está na felicidade que nos proporcionou. Não odiar quer dizer que somos muito gratas.
    Não me canso de dizer que você arrasa nos seus textos, Karine!
    Não pare nunca de escrever, você vai longe assim!

    osvintes.blogspot.com.br

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    1. Muito obrigada, Elaine! <3

      Beijao

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  2. Que texto! Me identifiquei muito com esse trecho: "Achei que você respeitava meus traumas e não colocaria os dedos nas minhas feridas apenas pra me magoar quando o fim chegasse. Achei que eu podia contar com você quando doesse, sem me dar conta que você podia se tornar quem mais faria doer." Ele representa algo que eu passei recentemente, ter entregado meu coração para alguém que eu achei que podia confiar. E não foi bem assim.

    Parabéns pelo texto! :D

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    1. A gente passa por isso, ne? Mas a gente segue em frente!
      Obrigada, Agnes!

      Beijos

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  3. Texto lindo! Também já pensei em ligar várias vezes mas não fiz isso porque não sabia o que dizer...
    Amo seus textos, Karine!
    Beijos :*

    www.annadecassia.com.br

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