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Na Estante


Você foi minha música mais bonita. A rima que não será feita com mais ninguém. Aquela chuva de fim de tarde, depois de um dia de calor infernal. Você foi meu inferno. Do mesmo modo como foi meu paraíso. Você foi meu sorriso mais bonito, meus olhos mais brilhantes, meu coração mais saltitante. Aquela saudade que doía, sabe? Você foi. Aquela felicidade do reencontro que não aconteceu com mais ninguém, você foi.

Você foi minha sexta depois das cinco da tarde. Aquele último bombom da caixa, que a gente guarda justamente pro final. Você foi, também, aquela noite de insônia, que me deixou acabada no dia seguinte. E pela qual valeu à pena não dormir. Você foi meu pesadelo. Entende? Tanto quanto foi meu sonho. E foi maravilhoso poder ter dormido com você.

É por isso que ninguém entendeu quando eu te deixei. Quando fui embora no silêncio da noite, enquanto você via seu programa favorito, sem fazer nenhum alarde, sem quebrar nada, sem aumentar o tom de voz. Ninguém entendeu o que é que estava passando na minha cabeça por uma decisão tão sem sentido. Porque você foi feito para mim e todo mundo sabia disso. Estava nos nossos olhares, nas nossas mãos dadas, na nossa cumplicidade e no jeito com que amamos. E sei que você também não entendeu porque eu te abandonei.

Fui embora pelo que você foi: essa coisa mágica, essa paz de um relacionamento saudável, esse encontro de duas almas que se amaram. Você foi a minha história mais bonita, que sempre estará num lugar especial na minha estante. O clímax do meu ato. E é por isso que te deixei, e é por isso que nem me passou pela cabeça te ofender ou bater a porta: porque você não é mais.

Fui embora porque não quero ao meu lado o livro que guardo na estante, com o maior carinho, embora nunca mais lerei, como você hoje é. O que quero, realmente, é alguém que seja para mim a história mais bonita, da qual sempre vou ter prazer de contar, como você um dia foi.


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