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É preciso perder-se


É estranho encarar um espelho e se perceber no reflexo. Estranho ver que o rosto ali refletido pertence a alguém que já viveu tanto, ainda que por fora a pele permaneça jovem, pouco alterada. É estranho, estranhíssimo, notar como o tempo foi gentil diante do caos interior.

É que, por dentro, as coisas já desabaram e se reergueram vezes e vezes seguidas. E, quer saber? A parte mais estranha é esta: ninguém viu. Ninguém a não ser os olhos que agora te encaram de volta no espelho. Os olhos, da cor que forem, do tamanho que forem, das expressões todas de tudo que se viveu. Os olhos.

Eles que viram o dia em que o avô partiu e o pai deixou de ser a imagem da calma e se tornou o homem que chora. O primeiro que se atreveu a tanto desde que você entendeu que eles foram ensinados a parecer inabaláveis.

Eles que viram o dia em que o melhor amigo se mudou da cidade e levou um pedaço de você.

Eles que viram a mãe se formar na faculdade.

Eles que viram o dia em que a prima se casou com o primeiro namorado. Eles que choraram de alegria quando ‘cê viu que o amor, até mesmo esse amor bonitinho que você sonhou e disseram que não existe, existe.

Eles que viram o dia em que você pensou em jogar tudo para o alto e fazer nada, nadinha que não quisesse fazer. Eles que viram o dia em que isso foi exatamente o que você fez.

É como aquela canção que diz que “você pode estar perdido de mais de uma maneira, mas eu tenho certeza de que isso é muito mais divertido que saber exatamente onde você está”.

E você não sabia, mas viu – com olhos da alma ou coração? – que a vida não ia esperar você decidir se estava ou não pronta para o que quer que fosse precisar enfrentar. Você não sabia. Mas, em tempos como estes, saber de tudo é quase um atestado de completa ignorância.



É que primeiro é preciso perder-se. E então talvez existam esperanças de se encontrar.







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