Pular para o conteúdo principal

Perdoa a bagunça


Cê perdoa, mas as xícaras tão manchadas, os pratos com os cantos quebrados e o coração cheio de marca das porradas que levei. Ainda têm umas dores, uns dessabores, umas lembranças ruins e uns pesadelos quando me lembro deles. Perdoa que eu ando um tanto cética e não dou mais bola pra música romântica, filme com final feliz ou clima de primeiro encontro. É que não acredito mais na felicidade de casal de primeiro mês, quero ver é casal sobrevivendo ao sétimo ano. Entende?

Cê perdoa as minhas cicatrizes e a alma cansada? E os traumas, e as histórias mal resolvidas, e os telefonemas no meio da balada pra dizer pra paixão antiga um pouco mais do mesmo: por que você falou que ia ser quando nunca foi?

Perdoa os dramas, os gritos, os choros, as risadas descontroladas, os colos que vou querer receber, os ataques na TPM, as dietas de segunda-feira, as neuras da adolescência que ainda não abandonei mesmo depois de ter mais de vinte anos na cara. Perdoa as brigas por política, perdoa os gritos contra gente machista, perdoa meu cansaço de tudo, de todos e de mim. Perdoa um pouco do que sou e perdoa por eu não ter: um pouco mais de calma.

Cê perdoa? Eu até te deixo entrar e dou casa, comida, carinho e companheirismo, mas você tem que encarar todo o resto. Cê encara? E você? Cê me dá café, amor e liberdade? E não me cobra, pelo amor de Deus, não me cobra mais nada porque eu não dou mais conta de ter que ser nada, porque ter-que-alguma-coisa foi o que sempre estragou tudo. E eu cansei de amor estragado.

Perdoa? Cê perdoa toda essa bagunça e não desiste de mim?
Então pode vir.


*Inspirado na frase "Perdoa o drama e não desiste de mim", da música Cena - Mallu Magalhães




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A história do fim de uma amizade

Você sentiu falta. Ligou, procurou, correu atrás. É estranho que isso tenha acontecido depois de tanto tempo. É estranho que tenha acontecido quando a alegria acabou, o namoro acabou, aquela sua maré ótima acabou. É estranho que você tenha buscado o colo e não a comemoração. Você sentiu falta, e eu queria que isso tivesse acontecido antes. Sentiu falta, e eu queria que eu voltasse a me importar com isso. 
Você veio, me abraçou, e teve um abismo enorme entre nossos dois corpos. A gente não soube o que falar, não soube até onde podia ir uma com a outra, não soube que novidades contar, não soube nada. Rimos aqui, ali, falamos aquele superficial que falamos com uma colega qualquer e depois nos perdemos em um silêncio que durou minutos, mas pareceu durar uma vida. 
Durou uma vida. Nossa amizade, tantos anos de risadas, de abraços, de choros, de lágrimas. E por isso é quase desumano soltar a mão de alguém que esteve com a mão entrelaçada na minha durante todo esse tempo. Mas acredito que nos …

Cansei de brincar de ser trouxa

Eu cansei das mensagens visualizadas e não respondidas. De ter que estar pronta pra quando você quisesse, mas nunca poder contar com sua presença quando eu queria. Eu cansei de ser sempre tudo do seu jeito, de mendigar sua atenção, de tentar me encaixar entre um horário e outro da sua agenda, de me esforçar pra caber nuns buraquinhos esquecidos da sua vida. 
Cansei das idas e vindas, cansei da falta de atitude, cansei das vezes em que você disse que eu era tudo o que você queria, só não era agora, só não era a hora. Eu cansei de escrever sobre você, de dizer que ia te esquecer, de voltar atrás, de tentar mais um pouco, de insistir mais um tanto. Eu cansei naquela noite em que você não voltou. Naquele silêncio em que a gente não dividiu. Na madrugada inteira que você não me aqueceu e eu morri de frio. 
Eu cansei depois daquele seu olhar vazio quando eu apareci de surpresa. Eu cansei de achar que era você, e era eu, você só não sabia. Porque, quando é, a gente sabe desde o começo. Eu cans…