27 de abril de 2016

Perdoa a bagunça


Cê perdoa, mas as xícaras tão manchadas, os pratos com os cantos quebrados e o coração cheio de marca das porradas que levei. Ainda têm umas dores, uns dessabores, umas lembranças ruins e uns pesadelos quando me lembro deles. Perdoa que eu ando um tanto cética e não dou mais bola pra música romântica, filme com final feliz ou clima de primeiro encontro. É que não acredito mais na felicidade de casal de primeiro mês, quero ver é casal sobrevivendo ao sétimo ano. Entende?

Cê perdoa as minhas cicatrizes e a alma cansada? E os traumas, e as histórias mal resolvidas, e os telefonemas no meio da balada pra dizer pra paixão antiga um pouco mais do mesmo: por que você falou que ia ser quando nunca foi?

Perdoa os dramas, os gritos, os choros, as risadas descontroladas, os colos que vou querer receber, os ataques na TPM, as dietas de segunda-feira, as neuras da adolescência que ainda não abandonei mesmo depois de ter mais de vinte anos na cara. Perdoa as brigas por política, perdoa os gritos contra gente machista, perdoa meu cansaço de tudo, de todos e de mim. Perdoa um pouco do que sou e perdoa por eu não ter: um pouco mais de calma.

Cê perdoa? Eu até te deixo entrar e dou casa, comida, carinho e companheirismo, mas você tem que encarar todo o resto. Cê encara? E você? Cê me dá café, amor e liberdade? E não me cobra, pelo amor de Deus, não me cobra mais nada porque eu não dou mais conta de ter que ser nada, porque ter-que-alguma-coisa foi o que sempre estragou tudo. E eu cansei de amor estragado.

Perdoa? Cê perdoa toda essa bagunça e não desiste de mim?
Então pode vir.


*Inspirado na frase "Perdoa o drama e não desiste de mim", da música Cena - Mallu Magalhães






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