4 de junho de 2016

O que eu aprendi (de verdade) ficando longe


Todo mundo quer saber detalhes quando você vai fazer um intercâmbio, morar em outro país, ou até mesmo em outra cidade. É normal, é claro, mas nem por isso é exatamente fácil responder o que as pessoas querem saber e atender suas expectativas. Às vezes, você se vê tentando responder perguntas para os outros que você sequer conseguiu responder para si mesmo ainda. É complicado pra caramba. 

Quando eu estava do outro lado do mundo, em um lugar completamente novo, as pessoas queriam saber sobre tudo o que eu estava vendo de diferente, as coisas que eu estava aprendendo, o que mais eu estava gostando. Eu falava sobre o sentimento de independência, falava sobre as praias, falava sobre minhas aventuras na cozinha. Contei, diversas vezes, que agora eu sabia segurar três pratos ao mesmo tempo e também que conseguia apoiar uma bandeja gigantesca no ombro. Falei sobre como estava conseguindo me adaptar a diversas situações mais rápido do que imaginava, das palavras novas que havia aprendido em inglês e que agora eu manjava tudo sobre análise SWOT. Na época, eu achei que tudo isso respondia à pergunta: "o que você está aprendendo por aí?".

Depois de voltar, as perguntas ficaram ainda mais comuns, de todas as pessoas, até de gente com quem eu sequer tinha intimidade. "Do que você mais gostou?". "O que aprendeu com a experiência?". "O que é melhor lá do outro lado do mundo?". E eu continuava respondendo. Que aprendi sobre outras culturas. Sobre um pouco da política da Austrália. Sobre uma forma nova de organizar o transporte público em uma cidade. Falava sobre a segurança, sobre as comidas, sobre os lugares legais de visitar. Às vezes, arriscava falar sobre as dificuldades também, mas descobri bem rápido que, normalmente, as pessoas gostam mais de saber apenas das partes boas. As ruins (e, sim, elas acontecem, mesmo num país sensacional), talvez, fiquem melhor guardadas apenas para quem nos ama mais. 

Mas hoje, meses depois de voltar, acho que enxergo meus meses fora de uma outra forma. Claro, tem bastante coisa sobre o outro país, sobre os lugares que fui, as praias que visitei, as fotos lindas, o transporte público, as ruas, os bares, os restaurantes. Tem um bocado de coisa sobre tudo isso. Uma experiência como um intercâmbio te faz conhecer e aprender muita coisa sobre o mundo - mas, antes de tudo (para mim, pelo menos) sobre si mesmo. 

Se me perguntam hoje qual foi a maior lição que tirei de tudo isso, acho que já sei a resposta: aprendi que eu nunca mais vou estar inteira. 

Sim, as pessoas haviam me falado sobre isto, tinham avisado antes mesmo de eu ir. Mas acho que, certas coisas, a gente só aprende mesmo na marra. Depois de sentir o murro no estômago, sabe? Tem coisa que a gente precisa passar pra entender de verdade.

Esses dias, passei um tempão no telefone com uma amiga que ainda está na Austrália. Ela me perguntou: do que você mais tem saudade daqui? "Das pessoas", eu respondi. E de tudo que a gente viveu. É a verdade, pura e simplesmente. Claro, eu sinto falta do país. Das praias, da segurança, do metrô, de trabalhar em festivais de música. Posso fazer uma lista gigantesca. Mas o que me dói mais? Não, não é o lugar. É o punhado de lembranças que eu tenho do que vivi com quem conheci naqueles seis meses. 

Da mesma forma que lá, quando eu sentia falta do Brasil, eu não sentia falta exatamente do Brasil. Eu sentia falta da minha família, dos meus amigos, da comida, da casa da minha avó, do sentimento de segurança que eu só sinto no meu quarto, das pessoas que me conheciam com a palma da mão sem que eu precisasse me explicar. Sem que eu precisasse me mostrar cada dia, provar alguma coisa. Eu sentia falta da certeza de que quem importava já sabia o que precisava saber. 

De tudo isso, acho que tirei que, para mim, nunca é exatamente sobre o lugar. São sobre as pessoas. Sabe? Acho que eu aprendi isso ficando longe: eu sou feita de quem eu amo. A parte mais difícil é que agora eu amo gente dos dois lados do mundo. 




Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. eu sou feita de quem eu amo. A parte mais difícil é que agora eu amo gente dos dois lados do mundo.  COMO LIDAR? Eu a pessoa que pediu para se identificar, te acompanho desde dos depois dos 15 e depois você sumiu perdeu totalmente a graça por la. Amei o texto como todos os outros.

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    1. Marcella! <3 Ah, que bom que se identificou! Fico muito, MUITO feliz de poder te agradecer de verdade! <3 Obrigada por acompanhar e pelos comentários! Fico toda boba lendo. Obrigada mesmo, viu?

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  2. bela reflexão. morar fora nos torna maiores e melhores.

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  3. Ai amiga, meu olho encheu de lágrima (juro!). Que texto lindo e cheio de verdades. Me vi muito nas tuas palavras, ate porque sei que sou uma dessas lembranças boas (me achei). E ao mesmo tempo me vi, porque quando li esse texto (não foi hoje) foi perto da minha ida pro Brasil.. então, como você bem sabe via whatsapp, TUDO FEZ MUITO MAIS SENTIDO. Parabéns pelas palavras e por todo o sentimento que você usa (e eu não sei de onde você tira) quando escreves. Continuarei te acompanhando sempre, mesmo que do outro lado do mundo. <3

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