27 de junho de 2016

Passado



Quando você passou por mim, eu achei que tudo iria desmoronar, que meu chão ia se perder, que eu não conseguiria mais andar. Foi naquela rua que percorremos por tantas vezes de mãos dadas, sorriso no rosto, aquela alegria de quem não ligava de estar apaixonado porque estava sendo recíproco. Me lembro tão bem da sensação desses dias... Como se fosse ontem. E não como se tivesse passado um século.

Imaginei tanto esse momento na minha mente, quando nos encontraríamos depois que decidimos ir embora. Quer dizer, depois que você decidiu. Eu apenas aceitei sua decisão, abaixei a cabeça, abri a minha porta, fingi que também te expulsava do meu coração. Você não sabe das noites que passei em claro, das lágrimas que derramei, do desespero angustiante que só a saudade pode nos atravessar. Você não sabe como foi difícil te deixar passar por mim e ir embora quando tudo o que mais queria era que você tivesse ficado.

Achei que ia acontecer à noite, e não quando eu acabei de acordar e saí de casa meio desesperada com o horário. Eu estaria maravilhosa num vestido que te deixaria louco, e não com a cara amassada e o mau humor de quem ainda mal havia bebido a primeira dose de café. Eu estaria bebendo algo alcoólico, me divertindo; não com um copo de café para viagem que tomava entre passos apressados. Você não estaria voltando da balada e eu, muito menos, estaria indo para o trabalho.

Não seria assim, nessa rua. Não seria assim, com essa sua cara de quem aproveitou muito bem a noite, obrigado. Não seria com você e suas roupas amassadas, o sorriso bobo no rosto, a leve expressão de quem ainda estava bêbado mesmo a essa hora da manhã. A gente se veria, travaria, assim, o corpo todo no chão, como em filme, porque havíamos visto todo aquele nosso passado bem a nossa frente, a uma esticada de mão. Então sorriríamos. Conversaríamos sobre amenidades, sobre o seu time, sobre a viagem que eu fiz pra Europa, sobre o casamento da sua irmã que não fui convidada, sobre sua vida e sobre como éramos bons juntos. Porque a gente era, não era?

Mas foi assim. Foi ao acaso, como se a vida voltasse a jogar na minha cara que ter te conhecido foi arte dela e que, como dona da obra, ela poderia destruir ou reconstruir como bem entendesse. Não tinha esforço seu ou sentimento meu que pudesse mudar toda essa história. E quando eu te vi, quase perdi o ar. Mas quando nossos passos se aproximaram, não senti nada. Nem raiva, nem desejo, nem saudade, nem vontade de me atrasar um pouco mais só para saber como foi a sua balada, já que sua cara estava assim, tão boa, logo cedo pela manhã. Eu não quis que você me pagasse um café, uma bebida ou o passado que interrompeu na nossa vida. Era como abrir um livro antigo que nos marcou tanto e, embora gostar da história, não ter vontade de reler de novo porque já conhece bem o final – e percebe os detalhes, e que vai nos fazer chorar, e que não vale a pena as lágrimas derramadas.

Quando você passou por mim eu achei que meu mundo iria desmoronar. Até que, te vendo, percebi que você não fazia mais parte do meu mundo, porque a gente acabou. Porque você finalmente passou. E não foi, assim, só por mim.




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