24 de julho de 2016

Naqueles dias



Eu cantava desafinada umas canções da Elis. E reclamava das minhas meias que cê roubava e sempre devolvia sem par. Você passava os domingos com a cabeça apoiada no meu colo enquanto a gente via um filme atrás do outro porque a gente meio que não gostava de existir em domingos. E eu passava os dedos pelos seus cabelos e pensava que eu tinha tudo que eu precisava bem ali: casa, comida, contas pagas e amor.

Toda terça, a gente gostava de jantar fora porque era meu dia de folga e o dia que você chegava mais cedo do trabalho. A gente conheceu uma lista enorme de restaurantes badalados nas terças - o que era ótimo, porque eles sempre estavam mais vazios e eram mais baratos do que nos fins de semana.

A cada quinze dias, a gente visitava sua mãe no interior. E ela me abraçava e me dizia como eu tinha virado uma filha também. Eu lembro de sentir um pouco menos de saudade da minha mãe dentro do abraço da sua. Você ria olhando nós duas ali e dizia que nós éramos as mulheres da sua vida.

Toda sexta, eu comprava uma garrafa de vinho no caminho pra casa. E a gente a bebia antes de se arrumar pra sair. Você me abraçava e me jogava na cama e me perguntava pela milésima vez por que a gente não ficava em casa e deixava o mundo pra lá. Em muitas sextas, a gente deixou.

Você me mandava mensagens no meio das segundas. Ei, já tô com saudade, escrevia. E eu sorria. Porque você tinha esse jeito só seu de animar o dia que eu mais odiava na semana. As segundas eram mais fáceis quando eu tinha você.

Eu corria pela casa porque você queria me fazer cócegas. E inventava de tentar fazer alguma receita exótica que tinha visto outro dia na internet. Você me convencia a ver pela décima vez o seu filme favorito - porque dessa vez eu não podia dormir (mas eu sempre dormia). A gente andava de mãos dadas na Paulista e se enfiava numas baladas estranhas na Augusta. Pelo menos uma vez por mês, eu te convencia a ir num karokê lá na Liberdade - e você dizia que não ia cantar de jeito nenhum. Não sei se por diversão ou por amor, naqueles dias você sempre cantava.

Naqueles dias, eu achei que amor não acabava. 





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