13 de setembro de 2016

Bem-maldito Amor

Vestiu sua melhor blusa, penteou o cabelo, colou um sorriso no rosto e saiu, cheio de esperança dentro de si, de que seria hoje. Ah, que pena, só queria encontrar o amor. Desses assim, de cinema, idealizado em sua cabeça romântica que não falava pra ninguém. Desses que vinha a cavalo, mesmo, ainda que negasse pra qualquer um que perguntasse. Queria um amor, sabe? Desses de arrancar o fôlego. Mas só achou aqueles que pareciam que iriam arrancar seu coração.

Andou por ruas tortuosas, por lugares escuros, por florestas fechadas só para encontrar o bendito. Arrastou-se em espinhos, comeu migalhas, sofreu o pão que o diabo amassou pra ver se ganhava um sorriso. Fez de tudo que pode. Fez tudo quanto pode. E quando não pode mais, continuou fazendo, porque precisava, porque se culpava, porque todo mundo em todo lugar estava sempre dizendo que o amor existe então tinha que ser sua culpa que não o encontrava.

Aceitou beijos secos, mãos frias, abraços que não confortavam e uma companhia que não preenchia. Ignorou o vazio no peito, o frio no coração, a cama solitária que dividia mesmo estando com uma companhia todas as noites. Suportou silêncios, daqueles enlouquecedores. Engoliu ofensas. Vomitou aquele sentimento de quem tinha muito o que falar, mas sabia que nunca seria ouvido.

Desapareceu em si mesmo. Transformou-se em uma outra pessoa, como todo mundo dizia que o amor faria. Mas o que viu no espelho não lhe agradou. Não era aquilo. Não era aquele rosto marcado por lágrimas silenciosas, por olhos inchados, por um desespero quase insano no jeito de olhar. Não era aquilo que um dia imaginara. Mas continuou.

Arrastou-se no chão da indiferença, por um pouco de atenção. Abandonou o amor próprio e deixou pra trás o orgulho, por umas migalhas que nunca lhe enchiam. Fez de tudo, meu caro. Fez de tudo e mais um pouco e ainda tinha a sensação de que não estava fazendo certo.

Varou noites adentro tentando entender. Mudou tudo em si para ver se conseguia. Quase colocou uma melancia no pescoço para ver se não era ele que estava discreto demais, pro amor poder chegar. Perfumou a casa toda, mas esqueceu de colorir sua alma. E não entendia porque o resto do mundo continuava a encontrar seu amor enquanto tudo ainda lhe parecia uma guerra perdida, em que só se feria.

Queria mais do que tudo encontrar o amor. E fez tudo para isso. Só esqueceu que o amor é assim, meio tímido, e só aparece para os distraídos. Queria tanto que aceitou qualquer versão do sentimento, ignorando que o amor é uma dessas coisas que não podem ter covers – que é assim, autêntico e inexplicável e inimitável por natureza. Ignorou que o amor é coisa bonita, é coisa que nos faz melhor, é coisa que nos deixa parecendo assim, meios super-homens, de tão seguros que ficamos. O amor é para os fortes que não se abalam por medo de perde-lo. O amor é para quem não espera. Porque o amor só aparece quando você já não quer mais encontra-lo.




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