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Menina: se doa

Chora, menina. Não sufoca essa dor não. Não engula sem querer pra ficar passando mal em silêncio depois. Não finja que tá tudo bem. Se deixa doer, se deixa curar. Ah, menina, os tempos são imediatos, eu sei, ninguém tem muito saco pra quem sai por aí sem maquiar o machucado. Mas não coloca corretivo em cima do seu sentimento, não joga base e uma sombra bonita pra disfarçar. Não pague tão caro para fingir. Vai por mim: isso só vai inflamar.

Menina, escuta o conselho que te dou de graça. Quando a dor vier, deixa doer. Coloca um blues lento. Pega um cigarro. Sei, você não fuma? Toma um vinho. Não gosta de bebida alcóolica? Toma um café. Desses fortes, desses amargos, desses que faz o estômago revirar e a cabeça sair do lugar, sabe? Mas se deixe sangrar.

Toma um banho demorado e deixa a água levar de você todo esse peso nas costas, essa dor no peito, essa sangria desatada. Se chover, é aquela história, deixa molhar. Não se esconda debaixo do guarda-chuva. Não espera a pancada passar. Aceita: de vez em quando a gente tem que cair pra lembrar como é que faz pra levantar.

Ei, menina, vai por mim. Eu sei que dói. Eu sei que machuca. Eu sei que a maioria das pessoas não tem tempo para ouvir o que você quer dizer. Então arranje um tempo para você. Não fuja disso como as outras pessoas fogem. Não finja como os outros fingem. É dos seus sentimentos que estamos falando. É com você essa conversa. Quando a dor vier, se doa. É isso, menina: não deixe de se doar, seja para o que for – da dor ao amor.

Não seja tão adulta. Não seja tão atriz. Não seja tão forte o tempo todo. Se lembra da criança que existe e persiste dentro de você. Aquela criança que quando caía, abria a boca sem medo, sem vergonha, sem maquiagem nenhuma para chorar, por qualquer que fosse o machucado. E depois levantava e voltava para a mesma brincadeira, sem medo nenhum de cair.

Não tenha medo, menina. Se tá difícil, é só lembrar: um passo de cada vez. Lembrando sempre que um passo feliz, já dizia aquela musiquinha antiga, vale por três. Mas um passo triste não é andar para trás: o amor pode até ser a nossa negação da morte, mas o que mostra que estamos vivos, que ainda nos importamos, que há algo mais em nós, é a dor. Então, se doer, menina, deixa-se doar.


Comentários

  1. Texto incrível de uma escritora talentosíssima!!! Parabéns Fernanda!

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