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Eu não te conheço mais

Quando eu ouso responder a mim mesma à pergunta que (quase) sempre faço, eu chego invariavelmente à mesma conclusão: não sinto mais dor.

Realmente, paro aqui para pensar e não consigo mais me dizer (ou  qualquer outra pessoa menos parcial) quais são suas qualidades e nem mesmo os seus defeitos.

Talvez, seja porque eu não te conheço mais.
Talvez, eu esteja usando o talvez apenas por ainda me lembrar que existiu um passado, uma grande história, uma forte parceria. E dessas coisas eu ainda não me esqueci.

Fui parando de te conhecer no dia em que te conheci. Eu não me lembro – e você também não, sempre contamos essa parte da nossa história como algo engraçado – de como nos tornamos amigas. Talvez, isso tenha sido fatídico. Olha eu aí usando o talvez de novo.

Se o acaso nos uniu, posso ter certeza de que quem nos separou foi ele também, além de nós mesmas. Sinto que inconscientemente nos esforçamos para isso. Foi proximidade demais, intimidade demais, segredos demais, momentos demais, competições demais, pessoas em comum demais. Foram muitas repetições. Foram muitas coisas iguais. Tudo em demasia, tudo em um exagero que foi fatal. Paft! Em um simples queda, desmoronamos ao ponto de inexistir vontade de se reerguer.

Não tivemos espaço para existirmos sem a outra. Eu dominei seu lugar de fala, e você se apoderou da minha presença.

Estive sempre do seu lado. Você esteve sempre do meu. Mas, você esteve do meu lado quando eu não merecia que você estivesse, e vice-versa. Fomos demais uma para outra e nos matamos assim, com todos os excessos.

Tudo o que é demais também mata.

Minha teimosia nos matou. Sua infantilidade nos liquidou.

Não vejo outro caminho. Não tenho mais vontade. Não sinto mais sua falta. Não fico mais triste por não te querer mais na minha agenda.

Foi acabando, minguando. De certa forma, pedimos, sem saber, por isso.

Eu não te conheço mais. Não sei o que fazes, não sei que sentes, não sei o que usas, não sei o que pensas, não sei que queres.

Eu não te conheço mais apesar de ter crescido ao seu lado, de ter passado tão bons momentos juntas.

Eu não te conheço mais. E você também não me conhece mais.

*Texto da Nívia Côrrea postado no Dramas e Vírgulas, que participou da última blogagem coletiva do blog. 

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