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Aos meus amigos que moram longe


Moro a mais de treze mil quilômetros dos meus amigos mais distantes. Na verdade, até cheguei a jogar a pergunta no Google e cheguei ao assustador número de 13.356,80 km entre mim e eles. Para ajudar, ainda tem o fuso horário na jogada: quando eu estou indo dormir, a galera lá do outro lado está, provavelmente, escolhendo o que vai almoçar. Isto levando em conta quando a gente fala a mesma língua – e quando um fala francês, a outra chinês e eu aqui me enrolando na língua que a gente herdou de Portugal? 

Não é fácil manter amizades assim, não vou mentir. 

Esses dias, soube que esfriou na cidade em que eu morava pouco mais de um ano atrás. Foi inevitável lembrar das tardes frias e nubladas no sofá do meu apartamento – filme na TV e uns dois potes de pipoca e Doritos, e todo aquele chocolate. A gente ficava horas ali, contando do passado, do presente, de tudo o que a gente queria fazer no futuro. Tinha tanto pra contar...

Quando você está em um lugar que ainda não pode chamar de “seu”, você divide muito com as pessoas que encontra pelo caminho: conselhos, risadas, jantares, lágrimas, cervejas, histórias, visitas a lugares novos, garrafas de vinho... mas, principalmente, saudades. A gente passava noites inteiras dividindo as saudades de quem a gente tinha deixado – sem saber (ou sabendo bem, talvez) que, pouco tempo depois, aqui estaríamos nós. 

É verdade, proximidade física nunca foi um fator imprescindível para manter uma amizade – sei de gente que manteve amizades à distância por anos, mesmo no tempo em que a galera ainda trocava cartas. Ainda assim, tem dias que me dói. Tem dias em que eu queria poder encontrar um amigo depois de um dia horrível, só para tomar um café. Às vezes, eu queria ficar de novo a semana inteira planejando o que a gente ia fazer no fim de semana – mesmo que acabasse nos mesmos lugares de sempre. Ou queria receber o convite no Facebook para um happy hour de aniversário na próxima sexta – e poder, de fato, ir. 

Mas eu não posso – e é nessas partes pequenas que a gente vai perdendo do dia a dia que amizades à distância doem. É quando eu não posso ir, quando não posso abraçar, quando não posso largar tudo e ir encontrar só pra uma cerveja e meia hora de conversa.

Ainda assim, a gente fica. A gente liga. A gente conta, quando dá – porque nem sempre dá – da última semana, do último mês, do último ano. E sabe, no fundo, que o que a gente construiu em todos aqueles dias que se via sempre é mais especial do que o fato de não se ver mais tanto – ou não se ver mais "nunca". 

Então, em tardes frias e nubladas, quando eu lembrar de cada amigo que fui deixando em qualquer lugar do mundo, seja em outro país ou na cidade vizinha, vou pensar que amizade é essa coisa bonita que nos faz ouvir áudios de cinco minutos no whatsapp, mesmo quando a gente odeia áudios do whatsapp. Ou que amizade é escrever uma mensagem gigantesca pouco antes de dormir tentando resumir o que aconteceu em um mês inteiro, mesmo que você odeie escrever textos no celular. Que é marcar um reencontro para daqui a dois anos, mesmo que a gente não tenha ideia onde vai estar depois de todo este tempo.

Cada vez que doer, é disto que vou lembrar: que amizade é estar, mesmo que você não esteja. 





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