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Sobre Nossa (R)existência

Era sábado – sete da noite. Filme, pipoca e uns beijos perdidos na poltrona desconfortável da sala do cinema. Estava calor, então fui de short. O cara que sentou ao meu lado não era meu desconhecido, mas alguém que eu já saía há um tempo e apenas queria conhecer mais. Conhecer mais, vocês entendem? Beijar, se divertir, comer uma pizza depois, jogar conversa fora e, quem sabe, descobrir se havia chances para nós dois.

O cara não entendeu.

Fui eu quem não expliquei direito? Eu que não deixei claro que só queria a distração do fim de semana, como fuga da loucura da faculdade, da vida, da minha dor? Foi o jeito com que retribuí o beijo? Ou a risada que deixei escapar naquela piada idiota que ele fez? Foi como eu joguei o cabelo? Como inclinei a cabeça ou fiz carinho na nuca dele? Ou foi o jeito com que me vesti?

O fato é que, entre uma cena e um beijo, o cara, aquele que eu só queria conhecer um pouco mais, tentou passar a mão em mim. Do nada, sem aviso prévio, sua mão já estava entre minhas pernas e eu, completamente despreparada para aquilo, levei um susto tão grande que pulei da poltrona. Ele riu. Eu não achei graça. E então ele disse uma frase tão simples, tão comum, que era impossível de não doer: a culpa é sua, foi você quem veio de short me ver.

Não, nós não demos certo depois disso, e cada qual foi para o seu canto procurar outras pessoas. Ele achou alguém, eu também. Mas, vez ou outra, me pergunto se essa procura foi para ele como foi para mim: um misto de enjoo, nojo, culpa e insegurança toda vez que eu ria demais, falava demais, beijava demais a outra pessoa com quem me encontrava. Se, à noite, revivendo aquele momento, ele também se perguntava se foi mesmo a merda do short curto (no calor!) o culpado por aquele assédio.

Porque foi isso: foi assédio. Levei um ano para elaborar que fui assediada, e mais um ano para compreender que eu não tinha culpa nenhuma. Nesse intervalo, toda vez que o beijo evoluía um pouco, eu me afastava, com olhos assustados, o coração batendo acelerado, o estômago embrulhado, relembrando aquela cena na sala do cinema. E me perguntava se era eu quem estava provocando, se era eu quem tinha que ter me portado melhor, se era eu, a que fora vítima, que tinha culpa.

Mulheres estão sempre se perguntando se foi culpa delas. Foi o jeito com que andei, o jeito com que falei, o jeito com que me relacionei? Foi por causa daquela piada que eu não consegui segurar o riso? Foi porque eu quis, quando não devia querer? A roupa curta, a roupa longa, a falta de roupa? Foi porque eu cometi o pecado grave, inconfessável, imperdoável, de também desejar?

Essa semana, a figurinista que denunciou o ator global famoso voltou à tona nas notícias, por ter voltado atrás no processo. O motivo: ela fora amante dele. Nas diversas reportagens que vi perdidas pela internet, comentários como “ah, tá explicado, então a culpa é dela mesmo”, e suas variações, pulularam minha tela e, só mais uma vez, me lembrou como era horrível aquela sensação de enjoo no estômago de novo – a sensação de que você está sendo violada, e mesmo assim deve deixar, porque, afinal, você deu liberdade, e a culpa é e sempre será apenas sua. A sociedade a nossa volta está sempre silenciando as agressões que sofremos, apontando o dedo para a mulher e lhe dizendo, de diversas maneiras, que se ela tivesse feito de maneira diferente, se ela não fosse tão risonha, não usasse roupa curta, não desse liberdade, não desejasse e, principalmente, por favor, se não for pedir muito, não existisse, nada de mal poderia lhe acontecer.

Não foi culpa da figurinista, só porque ela foi a amante. Não foi culpa minha, só porque estava de short. Não foi culpa sua, só porque você aceitou sair com ele. Somos vítimas. E julgar a vítima pelo crime sofrido é cala-la até faze-la desaparecer. 

Mas escutem só o que estou dizendo: não importa que vocês digam que, se formos bonecas reclusas, sem vontades, desejos, voz e posicionamento, nada de mal pode nos acontecer. Não adianta vocês tentarem nos matar, mas nos fazer continuar desfilando nossa beleza silenciada por aí, para agradar a sociedade. Não adianta nos forçar a não existir. Porque nós existimos. Nós rimos. Nós gritamos. Nós dançamos. Nós sentimos calor. Nós queremos liberdade. Nós desejamos. Nós queremos. E nós temos o direito de não querer também. Não somos culpadas por estarmos vivas, não devemos ser julgadas por sentir. E cada vez mais, com mais força e apoio, vamos continuar a dizer isso a vocês, a resistir.


Comentários

  1. 👏👏👏👏👏👏👏👏
    Parabéns! Amei o texto

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  2. CARALHO DE TEXTO!
    amei muito! vontade de aplaudir de pé!

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